“A longa noite de Bê” é o segundo romance de Fernando Ferrone, lançado este ano pela Mocho edições - e que prazer é reencontrar este escritor em uma narrativa dinâmica e sem rodeios: desde a primeira página, ele já traça o ritmo que nos guiará pela trama.
“Longa noite de Bê” nos convida a conhecer e desvendar Bê, um homem que encontramos pela primeira vez em uma situação absurda e improvável: em cárcere privado, amordaçado e amarrado, sem chance de fuga ou esperança de resgate. O tipo de coisa, como diz o autor, “que a gente nunca acha que vai acontecer com a gente” - até que acontece.
Bê, ao que nos é revelado pelo narrador, será provavelmente executado e seus crimes (se os cometeu ou não realmente é outra história) são revelados gradativamente por um narrador parcial que está decidido a fazê-lo rever todos os erros que já cometeu na vida, numa espécie de flashback hollywoodiano. E é neste flashback que conhecemos Lila e Rasta, dois universitários (ambos veteranos) que acompanham Bê em seu primeiro ano de faculdade e como o plano aparentemente perfeito de vender cocaína em festas universitárias para conseguir uma grana necessária, acabou tendo desdobramentos que vão além de processos criminais.
É fácil encontrar em “Longa Noite de Bê” elementos de “À deriva”, romance de estreia do autor, uma delas é a forma como as pontas da história se unem - porém, é surpreendente e emocionante como o autor explora as possibilidades dentro desta técnica narrativa, navegando pelo o que poderíamos chamar de submundos: do funcionamento cruel e desumano do sistema prisional brasileiro e das organizações prisionais paralelas (que poderiam se assemelhar a facções) ao funcionamento de organizações que gerenciam o tráfico de drogas na América Latina.
“Longa Noite de Bê” é um romance bem equilibrado e envolvente, com personagens bem desenvolvidos e únicos, que nos surpreendem continuamente, dando dinamicidade e fluidez à narrativa. Ferrone executa a história com habilidade e precisão, criando a tensão - e a curiosidade - necessária para que continuemos a avançar página após página.
