Quem conhece a Alfonsina poeta talvez se surpreenda com a cronista que encontrará nas páginas deste livro. Um pouco injustamente, a Alfonsina poeta foi tachada de romântica tardia, alheia às inovações que a vanguarda dos anos 1920-30, na Argentina e em outras partes do mundo, propunha como estética do período. Em parte, essa avaliação já foi contradita, em especial se for acrescentado ao debate estético o corte de classe e gênero tão relevante para se compreender o tamanho das rupturas levadas a cabo por Storni. Quanto à Alfonsina cronista, no entanto, não resta a menor dúvida de que ela foi capaz de compreender e vocalizar as grandes questões que ocupavam a sociedade argentina nas primeiras décadas do século XX. Buenos Aires transformando-se numa grande cidade, as organizações operárias, as greves, tudo enunciado de uma perspectiva feminista e popular que tornam evidente sua sagacidade e inteligência. Soma-se a isso, um texto ágil, irônico e seguro que finalmente chega à língua portuguesa.
