12/01/2026
Diante de um achado ou de uma visão formidável, o tio Edgar levava o dedo com a verruga aos lábios, convidando seu jovem sobrinho ― o futuro narrador de O toldo vermelho de Bolonha ― a fazer silêncio, a não dissipar a experiência vivida a golpes de lugares-comuns. “Deus é o não-dito”, sussurra ele à hora de dormir, certa noite em Saint-Malo. Essa discrição essencial dá o tom deste livro breve e luminoso, um dos últimos de John Berger. Sem alarde, o autor deixa as fórmulas feitas de lado e passeia entre um subúrbio londrino e as arcadas de Bolonha, o relato de viagem e o retrato falado do tio original e ligeiramente pancada, enquanto se permite toda sorte de digressão sobre receitas locais, tecidos de linho, estátuas em terracota, variedades de café ou ainda sobre os vínculos secretos e libertadores entre os grandes sofrimentos e os pequenos prazeres.
John Berger nasceu em Londres, em 1926. Crítico de arte conhecido por um sem-número de ensaios e livros como Modos de ver (1972), dedicou-se com igual brilhantismo à ficção ― seu romance G. mereceu o Booker Prize de 1972. O relato O toldo vermelho de Bolonha , publicado em 2007, faz parte da sequência de livros breves e inclassificáveis que publicou nos últimos anos de vida. John Berger faleceu em 2017, nos arredores de Paris.
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