As democracias parlamentares têm de assegurar certo grau de igualdade e de liberdade entre seus membros para se legitimarem. Sem isso, não garantiriam aos cidadãos privacidade, liberdade de crença, diversidade de comportamentos ou iniciativa econômica, nem promoveriam justiça social, arruinando o sentimento de pertença a um mundo comum. Mas a articulação entre liberdade e igualdade é mais complicada do que parece. Sua reunião em um mesmo indivíduo, que seria a um só tempo livre e igual a seus semelhantes, esconde tensões significativas. Como, por exemplo, alguém poderia ser livre em um contexto de desigualdades aberrantes? Em contrapartida, o que resta da liberdade se os indivíduos não puderem singularizar-se e diferenciar-se uns dos outros? Este ensaio busca examinar a contribuição que a França deu a essas questões. Na transição do mundo clássico para o moderno, filósofos, moralistas, escritores e artistas franceses colocaram em circulação um retrato da condição humana atravessada pela paixão da igualdade. É a formação desse ideário, seus deslocamentos internos e seu legado que se quer discutir aqui.
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