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Quando Russ Kick começou a organizar a antologia Cânone gráfico, a ideia era reunir 'o melhor da literatura de todos os tempos' em um projeto editorial e gráfico ambicioso, ilustrado pelas mãos dos quadrinistas mais talentosos da atualidade. A empreitada - que o autor define como uma maneira de pensar grande - deu mais que certo, e o material compilado extrapolou tanto as expectativas que o jeito foi dividi-lo em três partes. O volume 1 da série, publicado pelo selo Barricada em 2014, apresenta as primeiras experiências literárias da humanidade. Neste segundo volume, Kick conduz o leitor em mais uma fascinante viagem pela história das letras, partindo do ponto onde parou: o século XIX, quando a noção de moderno chega à literatura no formato do gênero romance.Mas essa antologia não é feita só de romances - também há contos, poemas, peças e cartas que expandem e diversificam a leitura. Daí a escolha de começar com Kublai Khan, do escritor inglês Samuel Taylor Coleridge, um poema onírico cheio de imagens do Oriente, adaptado por Alice Duke. A artista faz parte de uma seleção que também reúne Hunt Emerson, S. Clay Wilson, Tara Seibel, Maxon Crumb, Elizabeth Watasin, John Porcellino e muitos outros quadrinistas que tiveram liberdade total para fazer suas adaptações em obras como as fábulas dos Irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen, clássicos como Orgulho e preconceito (Jane Austen), Frankenstein (Mary Shelley), Oliver Twist (Charles Dickens), Moby Dick (Herman Melville), Folhas da relva (Walt Whitman), Os miseráveis (Victor Hugo), As aventuras de Huckleberry Finn (Mark Twain), O corvo (Edgar Allan Poe), O morro dos ventos uivantes (Emily Brontë), Anna Kariênina (Liev Tolstói) e O retrato de Dorian Gray (Oscar Wilde). Um brasileiro também está presente no time - Kako, que vive em São Paulo, ficou responsável pela versão de Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski.O segundo volume da série Cânone gráfico conta ainda com outros destaques interessantes, como a filosofia de Assim falou Zaratrusta (Friedrich Nietzsche), na versão de Laurence Gane/Piero, e algumas das gravuras originais de William Blake para seu poema épico Jerusalém.Uma obra que mereceu a atenção de diversos artistas ao longo desse volume foi Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll. Marco da literatura universal, o romance - que acaba de completar 150 anos - ganha uma versão sombria nas mãos da ilustradora Dame Darcy, referência em quadrinhos alternativos, e uma rica galeria de imagens, contendo 21 ilustrações da personagem em diferentes versões - negra, politizada e até gótica.'A literatura clássica é mais estimulante, relevante e subversiva do que geralmente se acredita. A imagem que fazemos dela como uma coisa entediante deve-se principalmente à maneira como ela é ensinada num sistema educacional que suga a vida dessas investigações da condição humana e as transforma em algo árido, que tem de ser dissecado e avaliado', comenta Kick na introdução do livro. 'Entretanto, essas obras são uma poderosa sondagem de questões universais, embalada numa bela escrita e habitada por personagens extraordinárias. Não admira que sejam usadas como base para as artes visuais e performáticas. Fiquei entusiasmado para ver o que aconteceria quando alguns dos melhores artistas da atualidade recebessem o cânone literário para brincar, interpretar e criar em cima dele. Sabia que teríamos coisas novas', comemora.Esse intento certamente foi atingido: Cânone gráfico é um livro sem igual, tão diverso quanto o público que almeja, podendo ser utilizado em sala de aula ou como referência para quem deseja se familiarizar com os clássicos e não sabe por onde começar. A seleção aqui apresentada é de inegável valor, a prova física de que é possível fazer um projeto ousado e acessível. Uma leitura deliciosa, distribuída ao longo de quase 500 páginas e 50 títulos de tirar o fôlego.A tradução para o português ficou a cargo dos experientes Flávio Aguiar, professor de literatura da Universidade de São Paulo (USP), e Alzira Allegro, professora de literatura de língua inglesa e tradução da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em matéria de tradução, esse volume traz grandes surpresas, entre elas uma nova versão do poema 'Jabberwocky', de Lewis Carroll.